Transformação pela Corrida

por / segunda-feira, 07 outubro 2013 / Postado emGente que corre
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Tentem imaginar a seguinte cena: você está com muita dor na gengiva e decide procurar um médico. Deveria ser o certo a se fazer nessas horas. Chegando ao consultório, o médico faz as perguntas de praxe, fala que vai pedir uns exames e se levanta para medir sua pressão sanguínea. Até aí, tudo normal. Você está tranquilo, pensando que não há de ser nada grave até que olha para a cara do médico e vê um ar de preocupação. Você se contrai um pouco, tenta afastar um pensamento ruim e de repente o médico diz: – Sua pressão está altíssima, 18 x 12, é preciso encaminhá-lo para um cardiologista! Colocam um remédio debaixo da sua língua, te carregam feito um saco de batatas e te viram do avesso em busca de mais problemas. O que você faria?

Uma cena como essa, aconteceu com o meu amigo, Fábio Namiuti. Naquela época, Fábio pesava 110kg, fumava dois maços de cigarro por dia, vivia estressado e era um cara extremamente sedentário. No caso dele, nunca havia acontecido um mal estar ou qualquer coisa que o levasse a pensar que tinha algum tipo de doença. Tudo parecia muito bem e a vida seguia da forma que ele acreditava que deveria ser. Já faziam 15 anos que esse cara fumava e, apesar de ter tentado parar algumas vezes durante esse tempo, parecia ser algo impossível. Impossível até aquele dia em que ele se viu ali, entre a morte prematura e uma vida cheia de realizações.

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Óbvio que Fábio, esperto que só ele, escolheu ter uma vida longa e sem tropeços. Orientado pelos médicos que indicaram atividade física, alterações alimentares e muita força de vontade, ele resolveu mudar de vida. Com o apoio da esposa, do médico e o medo de morrer ou vir a ter uma vida cheia de restrições, ele foi em frente. Largou o cigarro no fatídico dia do hospital e começou a caminhar numa área de 670 metros num parque perto de casa. Eram 8 voltas na pista e, como pouco tempo, lá se foram 10kg e Fábio ganhou mais disposição. Um dia, ele resolveu dar uma “corridinha”. Foram 200 metros. Resultado? Pulmões quase estourando e muito desconforto. Mas ele gostou do desafio e foi em frente. Aumentou gradualmente o tempo de corrida, até conseguir completar uma volta. Evoluiu para uma volta correndo e duas andando. Foi diminuindo o tempo andando, até que ele só corria. Você diria que estava tudo muito bom, não é? Pois ainda não era bem assim. Um dia, Fábio resolveu correr na rua. Ouviu piadas de todo tipo. Ficar com raiva desse tipo de coisa é normal. Até você já deve ter sentido isso se alguém já tiver feito algum tipo de brincadeira enquanto você corria… Eu já ouvi muitas piadinhas e já tive muita raiva! Mas o meu amigo não se deixou abater! Levou tudo como um grande incentivo e seguiu firme em seus treinos. Lembra-se de quando falei dos meus 10km?! Pois o Fábio me superou…

O Fábio é de São José dos Campos. Um dia, ele viu uma propaganda de uma corrida de 10km em Campos do Jordão. Você conhece Campos do Jordão? Não? Pois bem, a cidade está localizada na Serra da Mantiqueira, a 1628 metros de altitude – o município mais alto do Brasil. Consegue imaginar o percurso da prova? Pois o Fábio estava tão feliz com a possibilidade de participar de uma prova, que nem pensou no quão difícil ela poderia ser. Durante a prova, enquanto descia e subia e passava por terrenos irregulares, ele só pensava no por que dele estar ali. Como alguém normal se propõe a isso? Bom, ele só pensou nisso até avistar o pórtico de chegada. Quando ele cruzou aquele portal, todo o esforço ficou muito pequeno frente à emoção da chegada, a emoção de ter uma medalha no peito, de conhecer os motivos que o levaram até àquele lugar e o quanto ele havia se superado. A primeira corrida é sempre muito emocionante! Quem não se emocionou ao completar a primeira prova? Quem não viu a sua história passar como um filme ao colocar a primeira medalha no peito?

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Já se passaram pouco mais de 9 anos. Fábio é um corredor. Já participou de mais de 200 corridas, emagreceu 30 kg, teve um filho, escreveu um livro. Agora, algo que eu admiro demais no Fábio é que ao longo desses anos correndo, sem assessoria, mas com muita responsabilidade e curiosidade, ele nunca teve uma lesão séria. Veja o conselho dessa figura maravilhosa acerca disso: “se quase todo mundo começa a correr para cuidar da saúde, não faz sentido colocá-la em risco por causa de corridas. Sou meio avesso à tal mentalidade do ‘a dor é temporária, desistir é para sempre’. Essa frase, às vezes levada ao pé da letra, pode ser um perigo. Meu mote é outro: corrida tem toda semana (na pior das hipóteses, todo ano), você é um só. Cuide-se bem, sempre. Não procure demais o seu limite para não acabar o encontrando.” Quando eu comecei a correr, eu tinha um grupo de uns 15 amigos que corriam. Todos queriam bater tempo, aumentar distâncias, se superar mais e mais. Depois de 5 anos, apenas eu e mais duas continuamos correndo. Todos os outros tiveram lesões graves que os tiraram das pistas. E eu que era a menos provável de continuar, estou aí, sobrevivendo aos limites do meu corpo! Vale a pena pensar muito sobre isso!

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Como uma pessoa curiosa que sou, sempre procuro saber o que motiva as pessoas a continuarem correndo, o que as leva a treinar e tentar se superar a cada dia. O Fábio me deu uma das melhores respostas até hoje: “em 222 corridas (por enquanto!), vi muita coisa interessante, divertida, absurda, emocionante… Mas certamente o que vi de melhor foi esse clima magnífico de amizade e confraternização que cada nova prova proporciona. Minha paixão pelas corridas é renovada semanalmente. Se o mundo lá fora fosse mais parecido com uma corrida, certamente ele seria bem melhor. Há competitividade, mas também companheirismo, solidariedade, bons exemplos e boas atitudes, que tanta falta fazem no dia-a-dia. Na corrida, não há diferenças. Somos todos corredores…“

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*Texto Originalmente publicado no Blog Mundo Corrida em 30/05/2012

 

Aline Oliveira
Apaixonada pela vida, por esportes, pessoas e suas histórias. Curiosa sobre o mundo e eterna aprendiz. Depois de anos proibida de praticar os esportes que amava devido a um probleminha nos joelhos, resolvi me arriscar. Não aceitei largar a corrida e hoje sou uma corredora muito feliz!!!

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