Overtrainning: precisamos falar sobre isso!

por / quarta-feira, 03 agosto 2016 / Postado emSaúde é tudo, Vida de Corredor
Overtrainning

Imagine acordar no meio da noite com tremores no pescoço e taquicardia. Você volta a dormir, mas acorda novamente com os mesmos sintomas. Os dias passam e de repente você já não consegue dormir. E no dia seguinte tem treino cedo e você não rende muito, mas acredita que foi pela falta de sono. No meio do dia, você começa a sentir um tremor nas mãos. Mais um tempo e espasmos musculares passam a tomar conta de todo o seu corpo. Parece um filme de terror, mas quando esses episódios aconteceram com o designer e triatleta Fernando Casanova, o diagnóstico foi um só: Overtrainning.

Afinal, o que é Overtrainning? A síndrome do overtrainning ocorre quando o atleta treina num ritmo que o seu corpo não consegue se recuperar. Normalmente, ela é causada por um grande volume de treinos, descanso inadequado e dieta incorreta. O atleta treina de forma intensa, não consegue proporcionar o descanso adequado ao seu corpo e tem dificuldade em manter uma alimentação adequada e condizente com o volume dos treinos. O corpo entende que está vivendo uma situação extrema e é claro que reage! Os sintomas de um atleta com overtraining podem variar desde a fadiga física à psíquica. A queda no desempenho vem acompanhada de alterações na qualidade do sono ou sonolência durante o dia; mudanças no apetite; sensação de cansaço extremo; alterações psicológicas como excitação, depressão, irritabilidade, ansiedade e nervosismo; aumento do tempo de recuperação da frequência cardíaca; dificuldade excessiva de completar os treinos, perda de peso e apatia geral.

O diagnóstico de overtrainning pode ser demorado. Uma vez que os sintomas podem indicar outras doenças, é preciso realizar vários exames e testes antes de um diagnóstico definitivo. O problema é que, muitas vezes, os atletas são resistentes a procurar um médico e acabam não tendo o diagnóstico, como a fonoaudióloga e corredora Raquel Medeiros, que tinha vários sintomas de overtrainning quando resolveu mudar de assessoria esportiva e não procurou um médico, mas teve que encarar várias conversas com o novo treinador e foi forçada a diminuir o ritmo e pegar mais leve para afastar a fadiga extrema e as dores que sentia ao correr.

Em casos de overtrainning, nem sempre é preciso abandonar os treinos. Já diminuir o ritmo, é primordial! Após 1 ano e meio correndo, a pedagoga Ana Medeiros resolveu que era hora de largar as distâncias curtas e se aventurar nas Meias Maratonas. O problema foi que ela queria fazer tudo ao mesmo tempo agora e se jogou logo em duas provas de 21km seguidas! Não deu outra! Após uma provinha curta, ela foi diagnosticada com overtrainning! Ela sentia uma fraqueza extrema nas pernas e tinha a sensação de muito peso, não conseguia render direito. Ficou desanimada e teve que cancelar a sua 3.ª prova de 21km da temporada. Isso mesmo! Ela mal estreou na distância e já queria fazer uma prova longa atrás da outra! Ela não teve que parar de treinar, mas foi obrigada a diminuir em cerca de 40% o volume dos treinos de corrida e ainda sente um pouco de medo de voltar à musculação.

Às vezes, o overtrainning pode trazer lesões mais sérias também. No caso do Dênio, que é corredor de trilhas e asfalto e psicólogo, o diagnóstico surgiu após procurar um médico para tratar uma fratura por stress no pé esquerdo. Ele já sentia dores no pé havia algumas semanas, mas se recusou a diminuir o ritmo, mesmo com todo o cansaço que sentia durante os 3 ou 4 treinos semanais – que ele fazia sem orientação profissional. Ele sempre tentava acompanhar os mais fortes e, muitas vezes, sentiu a proximidade dos seus limites não só físicos, mas psicológicos! Quando foi ao ortopedista olhar o pé, acabou sendo diagnosticado com overtrainning e foi obrigado a ficar parado porque o seu pé foi imobilizado. Hoje, ele faz treinos mais leves e com uma frequência menor!

Voltando ao Fernando Casanova, nosso designer e triatleta, ele entendeu facilmente o problema quando o médico explicou a relação entre a intensidade dos treinos, a alimentação inadequada e o descanso insuficiente. Para um cara que estava acostumado a treinar 7 dias por semana, passar 20 dias completamente sem exercícios deve ter sido muito sofrido, mas ele cumpriu a indicação médica, reviu seu comportamento até então e se dispôs a mudar! Segundo ele, os eventos ligados ao overtrainning afetaram mais a sua rotina do que o diagnóstico em si. “Eu não conseguia produzir nem me concentrar da mesma forma, nem me relacionar com as pessoas do mesmo jeito, já que estava frustrado por ter alcançado de certa forma um limite”.

Um ponto comum entre todos os atletas com os quais conversei foi a frustração ao perceber que haviam ultrapassado um limite. Todos se sentiram um pouco decepcionados por terem se “permitido” chegar a tal ponto. E sim, há uma dificuldade inicial de falar sobre o problema com as pessoas mais próximas! Como tudo na vida, acredito que primeiro a pessoa precisa internalizar o problema, entender melhor, avaliar, estar de bem com o seu eu para depois falar sobre o assunto. Falar para as pessoas próximas que está reduzindo os períodos de treino ou mesmo se afastando um pouco do esporte para se dedicar a outras áreas da vida, foi algo que todos fizeram. Mas depois de um tempo, alguns conseguiram contar a verdade sobre o overtrainning e até ajudar outras pessoas, partilhando um pouco a sua história!

Não pensem que overtrainning ocorre apenas com atletas que não tem acompanhamento profissional! Na verdade, conversei com poucos atletas que não tiveram esse tipo de acompanhamento! A maioria, conta com apoio profissional sim! Enquanto alguns sofreram com o excesso de treinamento seguindo as planilhas montadas por profissionais, outros não acreditaram na capacidade de seus treinadores e resolveram “incrementar” os treinos por livre e espontânea vontade! O que fica disso tudo? Que com acompanhamento ou sem acompanhamento é preciso ouvir o seu corpo! É preciso entender que uma linha tênue separa o “treino forte” de um “treino over”! Acreditar em limites e conhecer os seus pode ajudar bastante!

 

 

Aline Oliveira
Apaixonada pela vida, por esportes, pessoas e suas histórias. Curiosa sobre o mundo e eterna aprendiz. Depois de anos proibida de praticar os esportes que amava devido a um probleminha nos joelhos, resolvi me arriscar. Não aceitei largar a corrida e hoje sou uma corredora muito feliz!!!

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