Mizuno Uphill Marathon – O Depoimento

por / terça-feira, 11 novembro 2014 / Postado emGente que corre
Mizuno Uphill 2014

Para quem ainda não ouviu falar, a Mizuno Uphill Marathon é uma Maratona para Ninjas!!! É uma prova com uma altimetria única e uma paisagem… Não, não é uma prova fácil! É para poucos! Poucos e bons, poucos e corajosos, poucos e dispostos a desafiar limites! O lugar escolhido pela Mizuno e pela X3M, organizadora e criadora da prova, é a Serra do Rio do Rastro, que passa pelas cidades de Treviso, Lauro Müller e Bom Jardim da Serra, em Santa Catarina. Os atletas encaram 256 curvas até cruzarem a linha de chegada. Quem completa a prova, isto é, quem  consegue superar todas as dificuldades impostas pelo percurso, recebe o título de “Ninja” e, além disso, ainda desfruta de uma paisagem única,  a 1.418 metros do nível do mar.

Não é fácil não, mas um amigo querido ousou aceitar esse desafio e ainda nos enviou o seu relato. Com vocês, Marcos Gagliardi:

 

“Serra do Rio do Rastro, majestosa e imponente cadeias de montanhas localizada na região sul, estado de Santa Catarina, no município de Lauro Müller, a mais de 1421 metros de altitude (altitude do Mirante). O percurso da rodovia SC-390 é caracterizado por subidas íngremes e curvas fechadas. A serra é coberta pela mata Atlântica, com uma fauna bem diversa, com vários tipos de felinos de pequeno, médio e grande portes, e anfíbios entre eles o “Sapo” símbolo do Desafio !

Foi nesse cenário incrível que resolvi marcar meu próximo desafio: a maratona em subida, a Uphill Marathon! Desde, 2009, quando estive no ‘Desafrio’, uma corrida de 50km, na região cidade de Urubici – SC, fiquei conhecendo essa serra pelas fotos e sempre me imaginava estar ali correndo, esse desafio vem lá de junho de 2009, mas não havia naquele momento nenhuma corrida programada para a região. Cheguei a sugerir a empresas que fazem corridas esse local, mas nada de concreto surgiu.

Em 2013, fiquei sabendo dessa prova, mas não consegui fazer inscrição apesar de tentar, até que em 2014 consegui, estava inscrito entre os 300 seletos corredores que mostravam-se aptos ao grandioso desafio da uphill marathon.

2014: Depois de correr a ultramaratona na patagônia de 63km em Torres Del Paine – Chile, pouco mais que duas semanas depois chegou a hora de subir, conhecer a tão esperada serra. A vontade de chegar lá era grande, me recuperei do desgaste da Ultramaratona e me posicionei com foco único para a maratona em subida.

Muitos corredores ficaram na cidade de Criciúma, cidade mais próxima da largada que tem maior condição de receber os atletas, e foi lá que estive também hospedado. O aeroporto da cidade é bem pequeno com vôos para Campinas pela empresa Azul.

O local da entrega do kit foi na cidade próxima de Criciúma, uma cidadezinha chamada de Treviso. Aqui também seria a tão esperada largada da 2º maratona em Subida do Brasil. A largada foi às 7h da manhã, na praça central da cidade, ao lado da Igreja. Antes da largada, um vendaval e chuvas torrenciais atingiram a região de Treviso. Isso já mostrava que algo poderia estar nos esperando na Serra. A tempestade inicial não abalou os ‘Ninja Runner’s’ – nome dado a quem tem a habilidade, a coragem, o controle do corpo e da mente para atingir a meta final dos 42,195km da Uphill Marathon.

Como diz uma das frases da Uphill Marathon: ‘Os que hoje te chamam de louco, amanhã vão te chamar de lenda!’

Às 7h, ao som de Highway to Hell, da banda AC/DC, os atletas largaram para os 42.195m da maratona em subida. Os primeiros quilômetros serviram como aquecimento para encarara Serra do Rio do Rastro com suas 256 curvas acentuadas.

 
 

Não havia mais chuva, uma trégua, seguimos em direção a serra. Dividi o percurso em 3 grandes e distintas partes para combinar uma boa estratégia de corrida. Os primeiros 10 kmscom subidas algumas fortes, mas dá para manter um bom pace. Do km 11 ao 20 uma região de variações de subidas sim, claro, mas também descidas, que se torna um oásis no meio da uphill marathon. No km 21 ao 26, subidas fortes, é preciso saber dosar muito bem a energia evitando o desgaste ao máximo. Após o km 26, a inclinação aumenta bastante e após o km 30 já no inicio da serra não tem refresco é subida forte e forte, e faltando 8km para o final da maratona, a inclinação torna-se muito forte, subir correndo nesse ponto é complicado.

A corrida: Os primeiros 5km procurei me aquecer bem com um pace de 10 a 10,3 km/h, passamos por uma região alagada, com pedras e sem asfalto, as vezes plana as vezes em subidas leves, correr aqui estava ruim qualquer descuido era sim queda, mas logo entramos no asfalto e pude nesse ponto já desenvolver melhor com um pace de 10,3 a 10,6km/h .

A prova estava só no início e era importante pensar lá na frente e foi isso que eu fiz : só pensava na serra….

Chuvas pelo caminho, bom refrescava!

Passamos por alguns municípios como Lauro Muller e vilarejos, população local saia das suas casas para ver o que estava acontecendo, eram os “Ninjas Runners” passando, tudo muito bom!

Passei por uma placa que sinalizava faltam 22km para a Serra do Rio do Rastro, mas mesmo antes grandes subidas se apresentavam e isso vai minando as forças, por isso todo cuidado é pouco quando se trata da Uphill Marathon.

Entre os km 10 e 21, corri muito bem aumentei meu pace chegando a 11,3 km/h, bem além do que eu estava planejando, mas estava me sentindo tão bem, que fui em frente.

O abastecimento foi perfeito, águas, em alguns postos isotônico, e um posto se não me engano no km 22 com amendoim, gel, etc… tudo muito bom.

Além do abastecimento aos corredores perfeito, não posso deixar de falar da parte médica, volta e meia uma ambulância passava por mim, e algumas vezes até perguntava : ‘tudo bem’, claro que em determinados pontos do percurso minha reposta era apenas com um sorriso meio ‘amarelo’ e um OK, positivo com a mão. Mas tudo muito bom.

Passei por vales, atravessei regiões de montanhas lindas. A paisagem fazia em muitos momentos o cansaço ir embora… eu pensava: ‘Como é bonito essa região’…

Quando faltavam 22, 21km para terminar a Maratona comecei a encontrar colegas ‘Ninjas’ já caminhando e isso antes da grande Serra. A prova segundo a organização tinha trechos de cortes: km 21km e km 10 para a chegada, na UPHILL Marathon a contagem dos quilômetros é realizada em ordem decrescente.

Agora a partir do km 21 que os ‘Ninja Runners’ foram testados de verdade. Mantive um ritmo adequado, entre 9,3 a 10km/h, para a região. Subidas fortes e algumas descidas pequenas ainda apresentava no percurso, mas eu sabia, isso iria logo terminar.

Em algum momentos dor no joelho, em outros na panturrilha, que me deixou preocupado, pois sabia que a uphill marathon iria mostrar a sua verdadeira face logo logo e precisava estar pronto para aguentar firme a grande carga de subidas que estava por vir. Logo faltando 17km para o final, começou as subidas contínuas, ou seja a partir daí, sem o mínimo refresco, nada de plano, descida agora era passado. Passei por alguns hotéis e mais colegas Ninjas caminhando, a subida começa a apertar!

Por incrível que pareça quando estava em subidas contínuas tanto o meu joelho como a minha panturrilha, não mais apresentavam as dores anteriores. Foquei ainda mais minha concentração, objetivo subir e subir… estava tão concentrado que nem vi um posto de abastecimento em plena serra. Nesse ponto no km 12 para o final da prova, a serra com suas curvas estava de verdade, ali aos meus olhos pensei :“ cheguei, agora vou subir!” … estava me sentindo bem, concentrado e com a respiração ainda controlada. Mas…

De repente .. no km 8 para o final da prova, a inclinação aumentou e muito, continuei a correr.. correr, estava a 7,0 e 7,8km/h, todo esforço e desgaste veio com tudo. Continuei bem lento até 7km para o final, quando fui obrigado a caminhar e correr.. caminhar e correr… , então nesse ponto a diante a natureza mostrou sua força aos ninjas, as fortíssimas rajadas de vento de 90, 100Km/h segundo órgãos locais de imprensa, e chuva forte, com pingos grossos. Quase não conseguia caminhar, correr era quase impossível, quando o vento estava contra, mesmo caminhando a sensação era de estar parado, um esforço enorme com um mínimo deslocamento. Subi segurando o boné tentando caminhar e as vezes desafiando o vento e as incríveis inclinações de até 32%. A chuva atingia a pele com força que doía, a inclinação sugava as últimas forças e o vento literalmente não deixava correr.

Para completar com a tempestade, laminas de água de cachoeiras desciam pela encosta e chegavam até a estrada, formando verdadeiros rios descendo a serra, água geladíssimas que dificultavam ainda mais a subida. A serra nesse ponto estava assustadora, teve momentos que parecia que iria sair voando literalmente, e isso me deixou com medo, pois o vento vinha com tamanha força que me empurrava para as pedras da encosta e em outros momentos sentia até uma flutuação (vou voar), as pernas se entrelaçavam, mesmo caminhando devagar quase parando a dificuldade foi enorme, difícil se manter na estrada. Também teve momentos que devido à alta pressão dos ventos sobre meu corpo, tive até dificuldade de respirar, isso foi realmente assustador.

Faltavam 2,5km para o final, ainda passando pelas ultimas curvas super fechadas da serra, nesse ponto voltei a correr sem ter a necessidade de caminhar, poderia fechar a maratona em sub 5h, ventava muito ainda mas dava para correr devagar. Faltando 1km para o final cheguei ao cume da serra e logo avistei o tão esperado pórtico de chegada.

Nos últimos 800m, forcei! Mas com o vento, parecia que estava correndo bêbado… Não conseguia ir em linha reta, mas forcei! A força para me manter na estrada era enorme. Consegui!!

Fechei a maratona em 5h e 26seg, quase sub 5h… mas fica para o ano que vem!

Agora sei porque são conhecidos de NINJA RUNNERS quem faz essa prova.

Eu e a UPHILL tudo a ver!”

Marcos Gagliardi – Ultramaratonista

Marcos Gagliardi na Mizuno Uphill 2014 - Fotos cedidas pelo atleta

Marcos Gagliardi na Mizuno Uphill 2014 – Fotos cedidas pelo atleta

Eu, como sempre, me emocionei, torci, vibrei… Que venham muitas provas desafiadoras para este guerreiro e que possamos acompanhar suas aventuras!!! Sucesso sempre, Marcos!!! E obrigada por compartilhar conosco essa experiência única!!!

Aline Oliveira
Apaixonada pela vida, por esportes, pessoas e suas histórias. Curiosa sobre o mundo e eterna aprendiz. Depois de anos proibida de praticar os esportes que amava devido a um probleminha nos joelhos, resolvi me arriscar. Não aceitei largar a corrida e hoje sou uma corredora muito feliz!!!

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