Mizuno Half Uphill – O Desfecho

por / sexta-feira, 09 setembro 2016 / Postado emDesafio Secreto
pos-prova

No momento em que eu decidi entrar naquele carro, o sonho chegava ao final. Ao contrário do que muitos me perguntaram, não foi difícil ali. Naquela hora, eu não conseguia respirar. Não dava para pensar em nada. Lembro que entrei no carro da organização e me encolhi em posição fetal. Eu só queria me sentir viva. Eu queria sentir a vida pulsando naquele pedaço de carne que parecia ser o meu corpo…

Quando me vi no Mirante, com uma garota massageando as minhas costelas e desesperada no rádio chamando ambulância e médicos, dizendo que nunca tinha visto aquilo na vida, me faltou mais ainda o ar. Senti que era a linha final, que eu morreria na Serra. Me senti burra, inconsequente, louca. Era só uma câimbra forte. Como eu poderia estar tão mal? Não sei, sei que quanto mais eu ouvia a garota, mais o ar me faltava. Resolvi olhar para o céu. Me perdi naquelas nuvens e na neblina, até que me vi com 6 pessoas à minha volta, cada um me perguntando uma coisa e eu só conseguia sorrir.

Um médico me perguntou de alergias e eu me lembrei que tinha escrito no verso do meu número de peito. Mas ele insistia na pergunta e eu respondi: prometazina e penicilina! Essa é a resposta que está sempre na ponta da língua. De repente, uma garota falava nome difíceis de medicações e o médico dizia que não. Até que ela falou algo que o fez concordar. Lá estava eu, de braços abertos, preparada para tomar uma injeção na veia. Duas garotas seguravam o meu braço e me davam orientações. De repente, uma delas se desesperou e começou a falar que estava inchando, que a medicação estava fora, que estava errado. Eu sentia muito frio e ainda tentava respirar direito. Não estava entendendo muito bem o que acontecia. Pegaram o meu outro braço e vieram com outra injeção. Fiquei ali, vendo o céu e tentando respirar.

Uma garota tocou o meu ombro e disse que a ambulância estava pronta. Pediu que eu me levantasse e a Tati me ajudou. Ela estava lá o tempo todo. Apoiando, segurando as minhas coisas, dando suporte mesmo. Quando a enfermeira pediu que eu entrasse na ambulância, fui obrigada a perguntar como. Não conseguia subir e ninguém ia me ajudar. Só isso! Simples assim. Sentei na porta da ambulância, me apoiei na maca e fui me deitando aos poucos. Fechei os olhos e não deu para segurar o choro. Ali, me senti muito sozinha e tive muito medo de realmente ser uma situação de tanto risco como a primeira garota falara. Foi naquela ambulância que eu entendi que o sonho acabara.

A enfermeira me dizia para não parar de respirar. Ela não parava de repetir isso, parecia um mantra. Comecei a sentir os lábios formigando e ela me perguntou o que eu sentia, ao que respondi: frio e tristeza! Ela me cobriu com uma manta e chegamos ao posto médico. Lembro de dizer que estava quente e que lá era gostoso, parecia barriga de mãe. Quando me mudaram de maca, perguntei se podia dormir e só os ouvia repetindo: não pare de respirar! Me perguntaram a quem avisar e eu disse que deveriam procurar o motorista da minha van e pedir para me esperar. Consegui dizer o nome da empresa e ouvi a Tati dizer que já havia avisado e que minhas coisas estavam com ela.

Comecei a sonhar. Eu estava aliviada, feliz e não sentia mais frio. Acordei com uma névoa branca em volta de mim e um médico me perguntando o que eu sentia. Disse que estava bem e queria ir embora. Ele pediu para esperar um pouco. Esperei uns minutos com os olhos fechados e pedi de novo. Quando abri os olhos, olhei para o lado e vi que a Leda estava na maca ao lado, tomando soro. Ela perguntou como eu estava e eu disse que bem. A mãe dela e a Tati estavam lá, cuidando dela. Eu queria sair dali. Queria vestir minha roupa, tomar algo quente e voltar para o hotel.

Pedi novamente para ir embora e o médico deixou. Eu só precisava me levantar sozinha e ver se estava bem. Consegui sentar na maca e fiquei um pouco tonta. Esperei um pouco e consegui me levantar. Peguei minhas coisas, que estavam na cabeceira da Leda, confirmei que ela estava bem, agradeci a todos e saí meio desnorteada da tenda. Estava muito frio lá fora e a minha roupa estava molhada. Pedi ajuda e me encaminharam para a salinha dos Ninjas.

Perguntei sobre o Guarda Volumes porque queria uma roupa seca e quando cheguei lá, encontrei a Alina, que ao ver meu estado, ficou tentando me ajudar. Eu devia estar com uma cara péssima, porque sentia todos me olhando com uma cara estranha e até o que estava sendo negado para os demais (como o caldo de feijão quente) foi liberado para aquela pessoa descalça que se arrastava meio zumbi. Troquei de blusa, tomei num só gole o caldo de feijão quentinho que me arrumaram, dividi o potinho de castanhas que me deram com um fotógrafo que me pediu um pouco e lá estava eu, posando para fotos com a galera do Whatsapp, segurando a medalha da Alina!

Passei uns minutos na salinha aquecida, conversando com meus novos amigos Ninjas, recuperando os meus sentidos e pensando em tudo o que eu havia vivido. O médico havia orientado fazer uma massagem para aliviar as dores, mas a fila era muito grande e eu não sabia quanto tempo fazia que as pessoas me esperavam, estava meio desesperada para chegar na van. Pedi para alongar as costas na bola de pilates que estava num canto e isso aliviou muito as dores na costela. Segui para a van, terminamos de reunir as pessoas e seguimos viagem para Criciúma.

Ao chegar no hotel, entendi que meu corpo realmente não estava bem e que tudo o que eu precisava era de um banho quente e descanso. Cancelei a minha carona para a largada da Maratona, li umas mensagens de apoio que alguns amigos e treinadores da Run&Fun haviam enviado e me emocionei muito! Mandei notícias sobre a prova para a família, fiz um vídeo rápido contando o que havia acontecido e dormi a tarde toda! Apaguei. Morri.

Como não havia almoçado, acordei com vontade de comer as paredes! ha ha E ainda faltava 1 hora para o jantar dos Ninjas! Tomei outro banho, gravei um Live com o meu depoimento sobre a prova para o Jornal Corrida, conversei mais um pouco com a família e fui receber mais carinho das pessoas maravilhosas que a Serra do Rio do Rastro colocou na minha vida! Quando minha carona chegou, descobri que era nada menos do que uma das garotas que correu comigo no início da câimbras, a Marcinha! E assim foram os encontros ao longo da noite! Como não agradecer?!

Eu sabia que havia passado muito mal durante a prova, que pessoas maravilhosas haviam me ajudado, apesar de uma equipe médica um pouco desastrada, mas eu me sentia bem! Descansei muito, curti uma noite maravilhosa com meus amigos Ninjas e aproveitei o Domingo de chuva para descansar mais ainda! Só soube um pouco da gravidade das coisas quando a Leda me mandou uma mensagem preocupada no Domingo porque eu havia apagado e ficado um bom tempo no oxigênio. Eu nem sabia! Estava desde sábado perguntando por ela e super preocupada com a falta de notícias! Mas ficamos todas bem! Recuperadas e ansiosas pela prova de 2017, para enfim, completarmos a subida da Serra!

Apesar de todos os percalços, de todos os sustos, de todas as dificuldades e medos, restou muito aprendizado! O que a Serra me ensinou nesses horas que passamos juntas, eu não havia aprendido em 8 anos de corrida! Tudo o que eu tinha ouvido falar e achava bonito, eu tive que praticar na Serra! Aquilo ali foi uma grande aula de solidariedade, humildade, respeito, amizade, doação e gratidão! Eu sabia que essa corrida transformaria a minha vida, só não imaginava que seria dessa forma e nessa intensidade! Foi realmente mágico!

É claro que eu quero voltar! É claro que eu quero terminar de subir essa Serra! Eu sei que não foi falta de treino, que não foi falta de dedicação, que não foi por causa do meu quadril e muito menos por causa do joelho! Foi a segunda vez que desisti de uma prova. Da primeira, doeu por 1 ano. Dessa vez, não doeu 1 hora! Eu estava pronta para o que viesse, eu tinha dentro de mim a paz de um Samurai. Minha alma está em paz, mas quer voltar. Não é para lutar com a Serra. Eu preciso voltar para reverenciar sua grandeza, para agradecer pelos ensinamentos, para conquistar um grande sonho! Nos vemos em 2017! Tenho Fé!

Nos vemos em 2017!!!

Nos vemos em 2017!!!

Aline Oliveira
Apaixonada pela vida, por esportes, pessoas e suas histórias. Curiosa sobre o mundo e eterna aprendiz. Depois de anos proibida de praticar os esportes que amava devido a um probleminha nos joelhos, resolvi me arriscar. Não aceitei largar a corrida e hoje sou uma corredora muito feliz!!!

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