Mizuno Half Uphill – Eu e a Serra

por / sexta-feira, 09 setembro 2016 / Postado emDesafio Secreto
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Quando largamos em Lauro Müller, fazia um pouco de frio. Não o frio que havia me aterrorizado fazendo gastar um fortuna em roupas novas para enfrentar até uma possível nevasca! Era um frio com o qual já estou acostumada. Aquele frio que só o corta vento resolve (corta vento luxo e exclusivo, no caso) e que já no começo se transforma em calor. Larguei com a cabeça a mil e um rock n’roll pesado nos fones. Eu, que só treinei sem música em 2016, resolvi colocar umas músicas significativas no celular e correr curtindo um som! Com 2km, eu já tentava guardar o corta vento bem dobradinho no bolso da bermuda! Apesar do vento e da neblina, eu sentia calor!

No início, apesar do nervosismo, as subidas não assustam. São leves, tem umas 3 retas e teve uma descida. Praguejei a descida inteira! ha ha Eu realmente não gosto de descer e ali vi meus joelhoes incharem. Era começo de prova e fiquei um pouco apreensiva, mas resolvi não me preocupar! Eu não havia parado de treinar por causa de dores e não seria justo nessa prova que eu pararia, né?! Segui me divertindo, curtindo aquele momento e agradecendo ao Universo por eu estar ali, realizando um grande sonho! Nas poucas casas no caminho, moradores curiosos observando aqueles seres estranhos, vestidos com roupas coloridas, que ousavam desafiar a Serra do Rio do Rastro. Analisando bem, é muita loucura! Fui sorrindo, desejando “Bom Dia” e observando a felicidade estampada no rosto daqueles que corriam ao meu lado.

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Assim que o Garmin registrou os primeiros 4km e eu dava aquela conferida no pace para verificar se estava dentro da minha estratégia de prova (e estava um pouco mais rápida), vi uma corredora saindo do asfalto meio perdida. Perguntei se ela estava bem, ela disse que era câimbra. Eu sorri e continuei. Só que em 1 segundo, lembrei de um texto que lemos num dos grupos da Uphill falando do quanto essa corrida era também uma prova de solidariedade. Voltei. Ofereci ajuda e me abaixei para ajudá-la a se alongar. Assim que aliviou, voltamos para a prova e puxei um pouco o meu ritmo.

Apesar de ter falado o tempo todo que não tinha estratégia, que eu iria devagar e só queria terminar a prova, eu tinha sim uma estratégia! Pretendia fazer os primeiros 10km com 1:20h, pois isso me daria 2:10h para fazer 15km e atingir o topo da Serra dentro do limite de tempo. Seria muito difícil. Os quilômetros finais, são os piores, mas eu não queria gastar muita energia no início e comprometer o meu final de prova! Fechei os primeiros 10km em 1:17:29h e segui sorrindo por mais uns 2km… Até começarem as câimbras, eu era pura gratidão e sorrisos!

Primeiro, eu senti câimbras nas panturrilhas, o que pode ser comum nesse tipo de prova, por causa do esforço maior nessa parte da perna. Depois, vieram dores no braço esquerdo. Por ter um probleminha no ombro, tenho tendência a travar um pouco o movimento do braço esquerdo em provas longas e aí começam as dores. Corrigi um pouco meu movimento, passei a acompanhar duas garotas que também estavam com câimbras e fomos intercalando trote e corrida. Mais alguns quilômetros e passou a ser trote e caminhada! A essa altura, começou a preocupação com o tempo de corte, mas passamos a pensar apenas em terminar a prova. Foi a partir daí que aquela corrida se transformou em uma prova de solidariedade para mim. Fomos nos incentivando, nos ajudando, falando de treinos, sacrifícios, motivos para estar ali e cuidando umas das outras. Uma parada para alongar, uma divisão de água, de lanche e lá fomos nós! Três mulheres cansadas, mas animadas a conquistar a Serra!

 A coluna começou a doer de tal forma que as câimbras foram esquecidas. Mais um ajuste na postura e o foco deixou de ser a coluna e voltou a ser as pernas. Mais um pouco e veio uma câimbra nas costelas! Eu não conseguia entender aquela dor! Não dá para explicar isso! Só me lembrava do meu pai falando desse tipo de câimbra e do quanto ele dizia que a morte deveria ser melhor! Realmente, a morte deve ser mais suave! Deixei minhas companheiras seguirem e passamos a ser eu, a Serra e aquela dor absurda! Ali, já não tinha mais asfalto. Era um concreto duro e as curvas mais lindas e ameaçadoras que eu vi na vida!

A essa altura, eu parecia uma louca falando sozinha! Cantarolava uma das músicas da playlist que se chama Becoming Insane do Infected Mushroom e me apegava a alguns versos: “Tell me why it’s always the same/ Explain me the reason why I’m so much in pain” e mais alguns: “Insane, insane, insane, insane, insane, I’m becoming insane”… O que me deu para colocar essa música na playlist? Vai saber!!! E outra música que eu gritei pela Serra e não fazia parte da playlist era dos Engenheiros do Havaí: “Se dizem que é impossível/ Eu digo é necessário / Se dizem que é loucura/ Eu provo o contrário/ E digo que é preciso/ Eu preciso/ É necessário”… Lá fui eu, tentando manter a sanidade, ignorando as dores e brigando com a Serra!

A essa altura, não havia mais estratégia. Aliás, a estratégia era: um fotógrafo em cada curva e a tentativa de ajeitar a postura, sorrir e dar um trotezinho para sair bem na foto! Tenho certeza que aquela quantidade absurda de fotógrafos era para nos manter correndo! Só pode! No início, deu muito certo! Depois, ficou chato! O mau humor tomou conta e eu só queria sair dali rápido! Passei a praguejar a Serra! Me lembrei de cada treino perdido, de cada derrapada na dieta, das vezes que deixei de aplicar gelo e lembrei até daquele treino de 2:30h (no sol) que virou 2:09h e foi o que mais me desafiou! Cada minuto perdido na minha preparação fez falta ali, após ter corrido cerca de 17km!

Eu, que vinha correndo sozinha já fazia um tempo e só via pessoas muito ao longe, de repente, vi um cara se arrastando Serra acima com uma das pernas completamente enrijecida. A essa altura, já nem pensava mais em tempo, só queria completar! Perguntei se ele estava bem e ele não respondeu. Fiquei meio puta, mas deixei pra lá. Quando cheguei bem perto, vi que ele usava fones – eu já havia desistido dos meus lá pelos 12km. Quando ele me ouviu e disse que era câimbra, me ofereci para massagear a perna e tentar dar uma aliviada para ele continuar, mas ele disse que tinha um médico um pouco mais acima e que iria parar. Parar, não passava pela minha cabeça! De forma alguma! Insisti um pouco com ele, mas ele já havia se entregado. Segui com ele até o médico.

Assim que cheguei na tal curva com atendimento médico, a Leda estava sendo atendida e parei para ver como ela estava. Ela sentia muitas câimbras e estava totalmente destruída, mas não queria parar. Falei que ia esperá-la, que seguiríamos juntas até a chegada e que dava tempo de terminar antes do tempo de corte (apesar de saber que não dava). Foi assim que passamos a seguir juntas. Éramos pura dor e nos arrastávamos pela Serra. Eu tentei esquecer a minha dor e focar no bem estar da Leda. Era a única forma da minha mente sossegar! E foi assim que deixei a minha dor de lado e passei a apoiar aquela garota que eu só conhecia de um grupo do Whatsapp. Uma coisa a Serra me ensinou: olhar o outro é sempre mais importante!

Eis que numa das curvas surge uma garota na garupa de uma das motos de apoio, gritando e vem ao nosso encontro! Era a Tati! Ela tinha vindo resgatar a Leda e acabou me resgatando do limbo também. Eu já não sabia o que pensar, o que falar, como me mover. Só pensava no topo da Serra e no quanto eu queria chegar rápido! Fomos conversando e nos ajudando. Doei uma paçoquinha para a Leda, que se esforçou para comer, mas não desceu. Ela não estava conseguindo se alimentar e com certeza, isso foi um dos fatores que mais prejudicou a prova dela. Passamos a administrar dores em busca do topo da tão temida Serra do Rio do Rastro! Numa das curvas, um fotógrafo! Lá fomos nós, tentar sorrir e parecer menos cansadas. Isso até deu uma aliviada!

Mortas, mas posando para o fotógrafo!

Mortas, mas posando para o fotógrafo! Tati, Leda e eu…

Passou mais um pouco e a Leda começou a falar em desistir. Deu um nó na minha cabeça! Eu não queria que ela desistisse porque eu sabia que não teria força mental para seguir sozinha. Mas mais uma vez, a Serra me ensinou e eu abri mão do meu egoísmo. Seguimos as três de braços dados conversando sobre limites, sobre dores e sonhos. Foi um momento um pouco mágico. Nós queríamos empurrar a Leda Serra acima (eu estava literalmente fazendo isso), mas o corpo dela já não respondia. Simplesmente não dava. Quando avistamos uma moto da organização, pedimos ajuda para ele e era o Bernardo (organizador da prova) quem estava na moto. Ele chamou um carro da organização, que a levaria até a próxima ambulância. Após conversar um pouco com a Leda, a Tati se dispôs a me acompanhar e nós seguimos por mais algumas curvas.

Deixar a Leda naquele carro, fez com que o foco voltasse às minhas dores. Apesar da Tati estar ao meu lado, éramos eu, a Serra, o frio e as minhas dores. A respiração estava difícil, as costelas doíam muito, as pernas já não eram sentidas, mas eu não queria desistir! Na minha cabeça, uma música dos Engenheiros do Havaí ecoava: “eu não vim até aqui pra desistir agora…” ao mesmo tempo em que eu meu lembrava da fala da minha amiga Chrys sobre desistir ser uma opção viável, lembrava dos conselhos do Felipe Branco e tudo aquilo estava deixando a minha mente louca! Então, avistei a placa de 3km para o final e desesperei porque eu imaginava que faltava menos! Reclamei alto! Esbravejei, mas fui! Passei a conversar com a Tati sobre coisas bobas e tentei me distrair daquilo tudo. Avisaram que iam liberar o trânsito e nós seguimos!

Eu tinha acabado de decidir que iria terminar aquela prova e que seria o mais rápido possível. Afinal, não treinei tanto, não sonhei tanto, para ficar sofrendo e me fazer de vítima! Eu escolhi estar ali, eu escolhi dividir o meu tempo com outras pessoas, não dava para deixar a minha mente me trair daquele jeito e começar a reclamar de ter perdido tempo ajudando e sendo ajudada! A realidade era aquela! Faltavam menos de 3km para o topo da Serra e eu queria mais do que tudo cruzar aquele pórtico! Foi assim, com essa ideia, que eu tentei corrigir a postura e entrei naquela curva. Eu só entrei na curva. A minha prova acabou ali. Assim que eu tomei a decisão de ir em frente, a minha prova acabou. Talvez fosse isso o que o meu corpo esperava para se entregar. Nunca vou saber. Só especular.

Ali, naquela curva que eu não faço ideia de que número era, puxei o ar e ele não veio. Numa fração de segundos, parecia que eu ia desabar. Tive que virar para a Tati e dizer que não dava. Eu, que sempre fui muito orgulhosa, tive que olhar para o lado e pedir ajuda. Foi das últimas lições que a Serra me deu. Aprender a reconhecer que precisava de ajuda! Foi tudo muito rápido. Realmente não lembro muito das coisas, mas de repente eu estava num carro da organização, alguém me pedia para tirar o chip do tênis e me vi descendo do carro no Mirante.

A Uphill havia acabado pra mim. A prova dos sonhos acabou. A luta com a Serra era finda. Após um ano sonhando, um ciclo se fechava. Num dos pontos mais lindos da Serra, eu me despedi de um sonho.

Serra do Rio do Rastro, você me venceu!

Ela é magnífica!!! Só tenho a agradecer todos os ensinamentos...

Ela é magnífica!!! Só tenho a agradecer todos os ensinamentos…

Aline Oliveira
Apaixonada pela vida, por esportes, pessoas e suas histórias. Curiosa sobre o mundo e eterna aprendiz. Depois de anos proibida de praticar os esportes que amava devido a um probleminha nos joelhos, resolvi me arriscar. Não aceitei largar a corrida e hoje sou uma corredora muito feliz!!!

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